Léxico Português
O arcabouço do léxico português (num total de cerca de 100 000 vocábulos) é constituído por elementos de origem latina (80%).
O latim vulgar suplantou a língua falada na Lusitânia graças à superioridade da civilização romana e um tanto ajudado pelo parentesco com o celta, língua também indo-europeia.
O substratum do léxico do latim vulgar era em essência o mesmo do latim clássico.
É verdade que, como em todas as sociedades, o povo não falava a mesma língua que as classes cultas.
Antes dos romanos, habitavam o território de Portugal povos de origem celta e ibérica, mas raros são os vestígios dos elementos pré-romanos.
Do celta existem traços na toponímia: Penacova, Penafiel, Bragança, Alcóbria, Selióbria; do ibero, através do espanhol decerto, em poucas palavras, como veiga, bezerro, arroio…
Depois dos romanos, o país foi conquistado pelos bárbaros germânicos, cuja língua, de povo inferior em cultura e número, não pôde suplantar o latim. Sendo, porém, indo-europeia, a fusão foi relativamente fácil.
Os germanos constituíam a classe guerreira, a dominadora. Por isso, a classe subjugada habituou-se a chamar aos objectos e a tudo que se referia à guerra, coisas às vezes novas para ela, como ouvia diariamente denominar.
Daí o grande número de termos militares de origem germânica: guerra, baluarte, brecha, escaramuça, brasão, brandir, dardo, flecha, espora, bridar, galopar.
Havia também muitos termos relativos às instituições políticas e judiciárias: banho (edital), arauto, senescal, marechal, alódio, feudo, etc.
A seguir ao acervo germânico veio o contingente trazido pela invasão árabe.
Apesar da superioridade da civilização dos árabes e da tolerância com que tratam os cristãos submetidos, a língua deles, pertencente à família semítica, dificilmente poderia fundir-se com o latim germanizado que encontraram.
Não obstante, numerosas foram as palavras árabes que se incorporaram ao léxico.
Os árabes faziam parte da classe militar e dominadora. Daí muitos termos relativos à arte da guerra: atalaia, adail, alcáçar, adarve; relativos a instituições jurídicas e sociais: alguazil, almotacé, almoxarife.
Os árabes eram senhores do comércio e das indústrias; daí termos como armazém, alfândega, quilate, arroba, quintal, almude, fanga. Eram hábeis artífices (alfageme, alfaiate, alveitar, alvanel, saguão, açoteia). Eram bons agricultores (acelga, alfarroba, aljibe, nora).
Brilhavam nas ciências, matemática, alquimia, medicina, astronomia (álgebra, algarismo, álcool, Altair, Aldebaran). Um prenome (Fulano) e uma interjeição (oxalá) conseguiram passar ao português.
Grande número de palavras de origem árabe começam por al, transcrição portuguesa do artigo definido árabe.
Depois de formada a língua, enriqueceu-se ela com muitas palavras provindas de línguas irmãs e de outras.
O espanhol, a língua românica mais semelhante ao português e vizinha dele, transmitiu-lhe muitas palavras que se podem reconhecer pelo efeito das suas leis fonéticas: acendrado, apetrecho.
O italiano teve grande influência em toda a Europa, principalmente pelo papel brilhante que a Itália representou no Renascimento. Dele vieram muitas palavras, sobretudo relativas às artes: soneto, barcarola, piano, terceto, soprano, tenor, fachada, cantata.
O francês influiu na língua desde os tempos dos últimos Valois até hoje. Foi sempre o modelo do bom gosto em toda a Europa.
Por isso, as suas modas, os seus costumes e a sua literatura se impuseram aos outros povos e daí o grande número de palavras francesas que passaram para todas as línguas: plissé, festonné, petit-pois, foie-gras, pelouse, pèlerine, taille-douce, mentonière, foulard, charrette, chaise-longue. Do século XVIII em diante cresceu extraordinariamente a influência francesa.
O inglês ministrou grande número de palavras, relativas principalmente aos desportos, à indústria e ao comércio: bar, basquetebol, bife, bridge, cheque, clube.
De outras línguas europeias vieram vários elementos.
Assim, do alemão tiramos, entre outros, os seguintes: bismuto, feldspato, ganga, gusa, cobalto.
Antenor Nascentes, O Idioma Nacional, Livraria Académica – extractos
No que diz respeito às línguas extra-europeias, o seu intenso contacto com o português na época dos Descobrimentos determinou uma forte influência mútua dentro do campo léxico (…).
A língua de Camões recebeu directamente da Ásia vocábulos como: pagode, canja, bengala, todos eles indianos: chá (palavra dialectal chinesa que passou não só ao português mas, igualmente, aos idiomas eslavos e provavelmente, através destes, ao romeno), com o seu derivado chávena; leque, de origem japonesa; pires, bule e catre, de precedência malaia. E, mais modernamente, através sobretudo de jornais franceses: quimono e haraquiri, palavras japonesas; dervixe, persa; caqui, indiana.
Também aos idiomas indígenas de África se deve o enriquecimento do vocábulo luso com palavras umas vezes transmitidas pelos próprios descobridores, outras pelos escravos negros, tão abundantes em Lisboa, nos séculos XV e XVI, e nalguns casos graças ao largo contacto com os árabes, que, como em tantos outros campos da cultura, actuaram frequentemente no linguístico como veículo transmissor.
Derivam, desta maneira: banana, zebra, girafa, macaco, cacimba, batuque, etc.
Pilar Vázquez Cuesta e Maria A. M. da Luz, Gramática da Língua Portuguesa, Edições 70
Fonte: Língua Portuguesa - 9.º ano, de Maria Ascensão Teixeira e Maria Assunção Bettencourt, 2004, Texto Editores.