A revelação é do ex-presidente executivo da Portugal Telecom, Miguel Horta e Costa.
Já no início da privatização da Telemar, no final dos anos 90, havia contactos entre a Portugal Telecom (PT) e accionistas da agora dona da brasileira Oi. Contudo, "não havia capacidade financeira para tudo" diz, em entrevista ao Diário Económico, Miguel Horta e Costa, ex-presidente da PT e o responsável pela entrada da operadora nacional no Brasil, através da Vivo.
Questionado sobre a venda da Vivo à Telefónica e o acordo para controlar 22,38% da Oi, o actual vice-presidente do BES Investimento aponta que "a participação na Oi é muito interessante". "Permite à PT continuar a manter a dimensão internacional que tinha, manter o motor de crescimento, que para ela e para os seus accionistas é muito importante", sublinha.
A entrada na Oi "dá à PT uma capacidade de intervenção em termos de gestão". Já sobre a venda da participação na Vivo à Telefónica, não tem dúvidas: "Considero que se conseguiu uma decisão muito boa para todas as partes", especialmente pela subida do preço, de 5,7 mil milhões de euros para 7,5 mil milhões de euros.
O presidente-executivo da Optimus, Miguel Almeida, prefere não se alargar em comentários, quando questionado pelo Diário Económico. "Não consigo opinar sobre o negócio da mesma forma que vejo toda a gente opinar. Confesso que não percebi completamente os detalhes da operação da Oi. A minha interpretação é que a PT mantém o interesse não só económico mas estratégico no Brasil e, nessa medida, não muda nada para Portugal, que é o que me interessa".
Miguel Horta e Costa entusiasma-se quando fala na presença internacional da PT, já que liderou este pelouro durante a sua passagem pela operadora. "Este investimento da Oi vai permitir à PT dispor de montantes para pensar noutras alternativas de investimento internacional".
Questionado pela América Latina, Horta e Costa concorda com a importância deste mercado, mas aponta baterias para outras geografias: "Não posso deixar de pensar em África, um continente onde a PT, por todas as razões, pelas vantagens competitivas que tem, pode vir a ter um papel muito interessante".
Regulação alvo de críticas
Miguel Horta e Costa e Miguel Almeida são de gerações diferentes e têm estilos díspares de gestão. Mas num ponto estão de acordo: a actuação do regulador sectorial, em alguns momentos, deixa-os descontentes.
O presidente-executivo da Optimus coloca a tónica na redução das tarifas de terminação (aquilo que os operadores pagam quando se termina uma chamada na rede dos concorrentes) e da assimetria tarifária. "Não se corrige um problema estrutural em seis trimestres. A Anacom introduziu assimetria tarifária por seis trimestres para limpar a consciência. E depois retirou-a. E depois esteve seis meses para implementar uma descida das tarifas. Obviamente que não podemos estar contentes com a actuação do regulador neste caso".
Para Miguel Horta e Costa a questão regulatória prende-se, sobretudo, com criar vantagens ao consumidor. "A regulação em Portugal está muito orientada para apoiar operadores com modelos de negócio inviáveis, como aliás se veio a provar. O papel do regulador deve ser o de beneficiar o consumidor e não o de favorecer os operadores mais pequenos só porque são mais pequenos".
Ainda assim, os dois gestores reconhecem valor à actuação da Anacom, o regulador sectorial. Horta e Costa aponta que "hoje o mercado é mais estável e concorrencial do que há uns anos atrás. Por exemplo, somos o segundo país da União Europeia em termos de penetração de banda larga móvel".
Já Miguel Almeida, questionado sobre se a falta condições para operar no mercado seriam condições regulatórias, é peremptório. "Há outros factores. Quando critico a regulação só critico quando acho que há erros gritantes. E temos como concorrentes duas grandes empresas. Não renegamos essa parte, mas o mercado não é um tabuleiro equilibrado onde possamos lutar com as nossas armas".