
Uma das coisas mais amáveis sobre meu marido é que ele tem cinco contadores Geiger.
Não os usava muito até que comecei a escreve sobre a radiação dos reatores nucleares danificados da usina de Fukushima Daiichi no Japão. Recentemente, uma das minhas entrevistas foi no mínimo estranha. Eu perguntei a um cientista sobre os possíveis efeitos sobre a saúde causados materiais radioativos que vazavam da usina e ele começou a falar sobre bananas.
“Por que nós ingerimos material radioativo todos os dias?”, disse ele em tom de dúvida. “As bananas são a fonte mais potente”. Ele explica que essas frutas contêm uma espécie de potássio radioativo desenvolvido naturalmente, mais do que qualquer outra fruta.
“Isso fica em nosso corpo, em nossos músculos”, disse o cientista. “A cada segundo, nossos corpos, seu e meu, recebem radiação”.
As castanhas-do-pará são ainda mais radioativas do que as bananas, ele acrescenta em tom quase regozijado. “O conteúdo radioativo está por toda a parte!” Tentei retomar o foco da entrevista para os reatores nucleares e, por alguns minutos, parecia ter dado certo. Ele disse que exposições desnecessárias à radiação deveriam ser evitadas, mas logo completou: “Adoro bananas. Não desistirei delas”.
Dias depois, tentei conversar com outro especialista, do outro lado do país em que residia o primeiro. Perguntei a ele sobre a descoberta de iodo e césio radioativos no leite e em alguns frutos japoneses. Ele disse que não era muito perigoso, mas que provavelmente ainda era melhor não ingerir os alimentos. E depois ele disse: “Acabei de comer uma banana como almoço”.
Logo pensei: ah, não, lá vem o discurso da banana novamente. Será que há um roteiro circulando pela terra da radiação com o título “Como acalmar a população com bananas”? “Bananas são radioativas”, ele continuou tranquilamente. “Tudo é radioativo, inclusive os alimentos que ingerimos e, para muitas pessoas deste país, a água que bebemos. Chegará o momento em que diremos que a mãe natureza não está mais entre nós.” Haverá um momento em que diremos que a necessidade de tranquilizar as pessoas pode atrapalhar a obtenção de respostas precisas? Momento, em que, por exemplo, uma repórter pode pensar que se mais uma pessoa falar sobre bananas, ela terá um colapso, ou, com todo o respeito, irá rir de nervoso.
Sei que os especialistas só estavam tentando colocar a ameaça invisível da radiação sob a perspectiva. Mas me pareceu que havia um esforço semelhante ao do Mágico de Oz para distrair a população do que realmente importava: Não prestem atenção naquelas piscinas de combustível atrás das cortinas! Quando contei a Peter Sandman sobre o discurso da banana, ele deu risada.
Sandman é um especialista em comunicação de riscos, residente em Princeton, Nova Jersey, que passou grande parte de sua longa carreira aconselhando cientistas e evitar coisas como responder perguntas sobre leite falando sobre bananas.
“A comparação certa é o alimento sobre o qual estão falando”, disse Sandman.
“Você pode dizer: A quantidade média é X. Agora estamos vendo Y”'.
“É muito ruim comunicar riscos à população de forma a fazê-la pensar que duvidamos de sua inteligência”, completou.