Conheça alguns dos projetos brasileiros que estão se tornando referência para as construções que respeitam o meio ambiente.Até 2012, uma casa com 64 painéis solares espalhados até pelas paredes, sistemas de reúso de água e automação residencial vai se tornar realidade dentro da Universidade de São Paulo (USP). O projeto, apelidado de Casa Solar Flex, é um imóvel autossuficiente em energia — por isso tem tantos painéis fotovoltaicos, para se alimentar exclusivamente de energia solar. Os donos da casa podem até ganhar algum dinheiro, vendendo a energia elétrica não aproveitada, como numa espécie de usina. Algumas tecnologias presentes no projeto já podem ser aplicadas até mesmo a edificações populares. É o caso da inércia térmica. Ela permite reter mais calor nas paredes durante o frio ou esfriar a casa no verão, economizando a energia usada na climatização.
O modelo da Casa Solar Flex segue o que os especialistas esperam que se torne popular em alguns anos e mostra o que há de mais moderno em arquitetura, design e engenharia sustentável. Ele é uma criação de seis universidades brasileiras: Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), além da USP.
Alguns atributos da iniciativa, como a automação residencial, ainda precisam amadurecer para entrar no mercado em larga escala. Uma persiana regulada automaticamente de acordo com a luminosidade do dia ou um ar-condicionado que só esfria os cômodos onde há pessoas ainda custam caro. "Já estamos formando arquitetos e engenheiros familiarizados com a tecnologia e o preço vai cair na medida em que se aprimora", diz o físico da USP Adnei Melges de Andrade, um dos professores que coordenam o projeto.
A Casa Solar Flex deve participar de uma competição internacional em Madri, na Espanha, em 2012, que exibe o que há de mais moderno em arquitetura sustentável. "No Brasil, não falta conhecimento para realizar um projeto capaz de competir com rivais internacionais. O que falta é a consolidação da tecnologia, para que ela seja usufruída pela população. Isso vai vir com o tempo", afirma Andrade. As tecnologias de automação presentes na Casa Solar Flex estão sendo desenvolvidas por engenheiros da USP e da UFSC.
O projeto das seis universidades não é uma iniciativa isolada. Desde 2005, Florianópolis, em Santa Catarina, conta com a Casa Eficiente. O local, além de ser um laboratório de testes para os especialistas em energia alternativa e construções verdes, é uma vitrine para estudantes e turistas. Mas, como no caso da Casa Solar Flex, ela usa muitos materiais de alto custo, como as placas solares importadas. Isso prejudica a viabilidade técnica e financeira de reproduzir o projeto. Ter uma casa igual a essa ainda é difícil, mas não faltam pessoas no Brasil testando e desenvolvendo tecnologias verdes para construir as casas do futuro.
Todo poder à energia solarA produção de painéis solares ainda é bastante incipiente no país e o custo inicial de adoção acaba sendo um pouco alto. Na PUC do Rio Grande do Sul, os engenheiros Adriano Moehlecke e Izete Zanesco são responsáveis por uma iniciativa praticamente isolada: a fabricação de painéis com eficiência semelhante à dos padrões europeus, de 15,4%. "Adquirimos os conhecimentos de fabricação das células solares em nível de laboratório na Espanha, em 1996. Desde então, tivemos que aprender muito para dar um salto para o conhecimento em nível industrial", diz Izete.
Com apoio de mais de 10 milhões de reais de financiadores, os dois já conseguiram fazer uma planta- piloto, com fornos que atingem até 1 000 °C, para fabricar placas. Duzentas delas serão instaladas em edifícios da Petrobras, da Eletrosul e da Companhia Estadual de Energia Elétrica do Rio Grande do Sul para análise dos protótipos em condições reais. "Queremos fazer uma tecnologia nacional com custos menores, usando insumos mais baratos e melhorando a engenharia do processo. É importante termos independência tecnológica em vez de importar tudo da Alemanha, do Japão ou dos Estados Unidos", afirma Izete. Com a disseminação da energia solar, a tendência é que no futuro mais casas tenham autonomia energética.
Watt por wattEnquanto as casas não conseguem produzir a energia que consomem, um passo importante é saber administrar o consumo. Em geral, as pessoas não têm conhecimento de quanto cada equipamento gasta. "Elas só sabem quanto será preciso pagar na conta do fi m do mês", diz o engenheiro Fábio Jota, da UFMG. Para calcular quanto cada equipamento eletrônico consome é preciso considerar o tempo de uso e a potência, o que não é o bastante para dar dados precisos sobre como a energia é gasta. Em uma parceria da UFMG com o Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais e a Companhia Energética de Minas Gerais, Jota e sua equipe construíram o sistema chamado de Centro de Monitoramento de Usos Finais (CMUF). Ele é capaz de monitorar cada aparelho, em todos os cômodos. A surpresa nos resultados do CMUF está no peso dos equipamentos em standby no total a pagar. "Eles chegam a um aumento de até 30% na conta. Em uma das casas que monitoramos, vimos que a TV gastaria 50% menos se não ficasse sempre ligada na tomada", diz ele. Outro problema são os computadores, que ficam até 24 horas por dia ligados em algumas residências. "Cinco computadores ligados o dia inteiro trazem uma conta de 150 reais por mês, mais do que o chuveiro, considerado o vilão da conta de luz", afirma Jota.
O CMUF é formado basicamente por uma série de medidores acoplados às chaves da caixa de distribuição de energia. Depois da coleta, os dados são enviados por uma placa de rede para o banco de dados da UFMG. Pela internet, dá para acessar o sistema de qualquer lugar, avaliar o consumo da casa e até desligar aparelhos remotamente. "É possível também acoplar módulos às tomadas dos eletrônicos e desligá-los remotamente. Assim, se você chegou ao trabalho e viu que esqueceu algum equipamento ligado, não precisa voltar para casa só para desligar", afirma Jota. Em fase de testes em escolas e órgãos públicos de Minas Gerais, o sistema deve chegar ao mercado custando pouco. Ele poderia ser instalado em um poste de energia para ser compartilhado por vários imóveis. Se servisse 256 casas, por exemplo, a instalação custaria 100 reais e cada uma delas pagaria 10 reais mensais de manutenção. Isso permitiria às companhias elétricas ter mais conhecimento sobre como é gasta a energia. Caso fosse instalado em uma só residência, ele sairia mais caro, mas daria dados mais detalhados. O Departamento de Estradas de Rodagem de Minas Gerais, por exemplo, conseguiu economizar 1,5 milhão de reais na conta usando o sistema. O principal problema era o ar-condicionado, que gastava muito no modo standby. Um sistema semelhante ao CMUF também está sendo desenvolvido no Laboratório de Sistemas Integráveis (LSI) da USP. O plano é conseguir monitorar os gastos de luz e água e receber os dados pelo sinal da TV digital, segundo o engenheiro Marcelo Zuffo. "Visto que nem todos têm acesso à internet, o uso da TV pode ser ainda mais interessante", diz.